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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Cidade


Sinto a cidade como se fosse um corpo. Um organismo vivo e apaixonado. Uma súplica por um amor encontrado numa noite sem pretensão. Sinto o inspirar e o suspirar como a palpitação rápida do meu coração ao subir as escadas da casa. Sinto a cidade como se fosse um corpo: o meu. Esperando para ser explorado, descoberto, experimentado.

O sol das três e meia da tarde caia sobre as ruas feitas de memórias e pedras cuidadosamente alocadas à mão sobre um terreno-palco para grandes amores, pedras cuidadosamente desgastadas pelos tempo que se foi, e pelo tempo que há de vir. O sol trazia um cheiro familiar. O fumo, o frio, o sol, o branco e amarelo das paredes das casas, o cinza dos longos casacos, e os cachecóis que mais parecem cobertores por volta do pescoço das mulheres, tão lindas e tão pequenas. Realmente elas são miúdas. Eu não, mas mesmo assim teimam por me chamar. O charme do disparar das palavras - palavras escolhidas pelo hábito - parecem surrealmente esculpidas para agradar o meu ouvir. Corriqueiras e ao mesmo belas ao serem proferidas por lábios tão pequenos e doces, como os dele. Era só mais um dia comum, de uma fuga comum, pois não importa em qual lado do Atlântico eu esteja, sempre encontro algo para fugir. As ruas estavam enfeitadas para o Natal. Num pequeno largo que aqui chamam de praça, haviam inúmeras árvores feitas de materiais alternativos, desde garrafas, a esponjas e livros.

- É uma pena, mas em breve estas árvores não mais estarão aqui.

- De onde venho, seria só o esforço de colocá-las para não mais estarem. O povo do Brasil é mais rápido!

As comparações surgem a todo momento. É inevitável. Ok, tenho saudade! Mas surpreendentemente, não das pessoas, e sim do que é nosso, nossa comida, nosso sotaque característico, nossa cultura tão plural. Sinto saudade das ruas de Porto Alegre, mesmo tendo em Évora uma cidade que me abraça, que me aquece. Saudade nem sempre exprime vontade de ter de volta, e a vontade de ter de volta nem sempre vem cheia de saudade. Em algum lugar da internet definem saudade como sentimento de mágoa e nostalgia, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação, mas não sei se concordo plenamente com esta definição. E no final, todas as línguas não passam disso: definições. Regras encadeadas para significar o que se sente. Um universo simbólico de representação da cabeça humana. Será que somos os únicos animais a terem tal sistema? Ao menos, com tamanha complexidade, acredito que sim. E assim, na sua origem mais remota, entre o serpentear de um pré-latim e do pensamento, surge latente, uma língua: elemento máximo necessário para caracterização de uma cultura. Como me encontrar numa cultura que não é minha? Simples, perca-se.

- E então, tornou-se hábito andar assim?

- Não é hábito! É que hoje saí atrasada. Coloquei o vestido logo que acordei e não daria tempo de tirar e recolocar o vestido, só para estar adequada. Um lenço e um casaco são mais rápidos e disfarçam na mesma!

Parece inevitável o procurar da mão sobre o fino tecido. E mais uma vez, o arrepio do seio vence a moda. Gosto da correnteza que rege o meu corpo, natural como deve ser. Gosto como sinto essa cidade.

- Estou atrasado...

- Me deixa aqui. Não tem problema.

- Mesmo?!

O beijo rápido e silencioso justaposto com o abrir da porta afirma que realmente não existe problema algum. Se ele soubesse que com o fechar da porta depois do "A gente se fala daqui um bocado!" eu teria o prazer de poder participar desta fotografia em tempo real, o prazer de caminhar com algum frio na ponta do nariz, o prazer de enxergar o brilho que só a miopia proporciona, e enfim, o prazer de conseguir retomar minha vontade de escrever, tenho certeza que ele faria o favor de me expulsar de dentro do carro!

O sol de um quarto para as quatro me lembrou o sol de Maceió: limpo, pouco intenso ao queimar a pele, muito intenso em marcar emoções. Sinto a cidade como se fosse um corpo. Obrigada pelas aventuras, Évora.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Palco de Areia


A fotografia do rosto das duas únicas crianças que assistiam a peça infantil foi ímpar. No início estavam entendendo nada. Procuravam o olhar de aprovação da mãe. Seus rostos estampavam uma variação entre a chatice que muitos sentem quando se fala em uma obra contemporânea, e a ironia no olhar de quando comentam sobre uma obra da Joana Vasconcelos.

A areia pode ser mágica em mãos hábeis. Pode ser simples brincadeira de sujar, ou, pode ser a poeira das estrelas. E essas estrelas podem ser tudo o que você deixou para trás dentro daquela caixa, a caixa das coisas atiradas e esquecidas, das coisas de antes de crescer, de antes de ser o adulto que acreditas que és. A areia pode ser o elo da memória da caixa, um disparador de sentir. E assim, no piscar prolongado dos olhos, jogada sobre o palco inclinado do Teatro de Évora que muito me lembra o Teatro São Pedro - com a saudade das ruas que não andei de Porto Alegre! - reencontro a criança perdida. A areia que sujou minha meia calça castanha e teimou em acompanhar meu braço, a areia fina e amarela-pálida, a areia que podia ser vidro, podia estar corrente nas águas desse planeta tão pequeno, estava ali, toda para mim, tal e qual eu para ela. Despida das preocupações do que os outros poderão achar, aceito a brincadeira e prolongo ainda mais meu piscar combinado com o toque suave deste pó mágico. Quem me conhece reconhece meu prazer pelo toque!

Texturas.

No carrossel instantâneo que congestionou meu espírito, transitei entre as águas cor de chocolate do mar de Tramandaí, a cancha de bocha da Ponte de Arame, e o crepúsculo do céu ao entardecer em Itapuã - que não é a do Toquinho e do Vinícius, mas onde vadiei alguns dias, ouvi as ondas quebrarem, falei de amor e também argumentei com a doçura de uma cachaça rolha. O sol que arde sob o breu de um palco de areia. Palco inquieto, irreproduzível, avesso. Palco para encandear lembranças.

Apague as lâmpadas dos olhos.
O jeito da sua escuridão me acalma.

A quantidade de pessoas continuava exatamente a mesma do início da peça, assim como as pessoas, que eram as mesmas. Porém, tínhamos no mínimo mais umas cinco crianças ali. A cada passo da atriz, um mar de possibilidades. As crianças de idade esqueceram a atriz, pois a areia é um fenômeno sem concorrência. As crianças que foram ali evocadas ficaram na expectativa, na observação, no apreciar da cena, esquecidos de suas idades e de suas vidas além daquele instante. O que ela vai fazer agora? Era uma dança bêbada de espalhar e recolher tábuas quadradas, que quando estavam empilhadas formavam uma caixa cúbica. O desempilhar, desenroscar, desordenar. O sujar, o experimentar, o evocar. O recolher. Maternal e furioso de repente! Um barco cúbico surge dentre as tábuas. Eu naveguei. Não esperei um grande final, pois o que arrecadei no durante foi mais que o suficiente. As luzes que eram poucas já se foram.

Tô sozinho aqui e tenho medo de fantasma.
Deixa eu dormir na sua casa?

Fragmentos da música "Deixa eu Dormir na sua Casa"
Banda Mais Bonita da Cidade

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Uma forma de se importar - Lyer



O gerente foi recebido na loja Empório da Festa com energia. Todos os funcionários saudaram de bom humor quando viram que Caio voltara das férias em plena quarta-feira. Ele aspirou o ar sempre perfumado do lugar com sentimento de volta ao lar. Caio adorava trabalhar ali.
- Achei que só ia chegar na segunda que vem - gritou a bonita mulher de cabelos rosa atrás do grande balcão no fundo da loja.
- Sabia que a surpresa iria encher seus coraçãozinhos de alegria! - Caio piscou para ela, formando um coração com as mãos e o movendo como que batesse em seu peito.
Todos riram e Verônica fez que não com a cabeça. Ambos tinham alguns anos antes dos 30 e eram amigos desde que se conheceram naquela loja.
Caio foi para o vestiário masculino e colocou seu uniforme branco com detalhes em verde, com seu nome bordado no peito e o símbolo da loja de presentes. Ao retornar a loja, viu um rosto conhecido em frente ao balcão. O homem em roupas sociais ajeitava um montinho de papeis para colocar dentro de sua maleta. Tinha o rosto cansado e olhar distante, como sempre.
- Shade! - Caio o cumprimentou - Quem é vivo sempre aparece!
- Ah, e aí? - Shade lhe deu um sorriso triste - Só recolhendo algumas notas. Voltou das férias, é?
- Sabe como é - Caio levou a mão ao queixo, fazendo pose de séria reflexão - Minha simples presença aqui parece fazer nosso lucro subir.
- Não tem como negar - ele riu - Vi algumas velhinhas passarem dando um suspiro de saudade para loja.
- Anda fazendo alguma coisa interessante? - Caio apertou os olhos para ele - Conheceu alguma garota interessante?
- Só o de sempre - Shade terminou de guardar suas coisas - Nada de interessante…
- Ok - disse Caio, decepcionado - Seu aniversário é nesse sábado, né?
- É? - o outro riu, levemente sem jeito - Acho que sim. Como você lembra dessas coisas?
- Tsc tsc - Caio balançou a cabeça em reprovação, então martelou as palavras no balcão com o nó do dedo - Vamos festejar essa sexta, pra comemorar desde o primeiro segundo.
- Eu não acho que…
- Tem coisa melhor pra fazer? Duvido muito - Caio piscou para o amigo - Vou arranjar algumas companhias de verdade. Eu te aviso quando decidir o lugar, ok?
- Ok.
Eles se despediram e Caio observou enquanto Shade ia embora. Sentiu que estava ignorando alguma coisa e de repente percebeu olhos o observando. Olhou lentamente para a direita e viu um rosto de boneca em tamanho real o fitar com desinteresse mórbido. Uma garota de cabelo branco e mechas verdes o encarava com monotonia, sentada em uma cadeira atrás do balcão, no caixa mais próximo da parede. Não tinha como ela ter passado por ele sem ele notar, ainda mais estando tão perto.
- D-de onde você saiu? - Caio sorriu, perplexo.

sábado, 10 de setembro de 2016

Sobre a vida em São Paulo

Antes de vir para cá ouvi tanto falar de São Paulo. De bem e de mal. Sobre pessoas frenéticas, que não te olham, não ajudam, uma selva de pedra onde as pessoas se matam por um teto, um emprego ou uma liquidação. Sobre festas incríveis, quando e onde quiser, com pessoas das mais diversas e sem rótulos, de programações culturais variadas e da pluralidade de gente que vem parar aqui procurando uma oportunidade. É, todos os comentários são um pouco verdade. Hoje, tendo o semestre a milhão na UNIFESP posso reparar que quem sobreviveu em Porto Alegre, mais especificamente na UFRGS, consegue sobreviver aqui. As pessoas são frias? Talvez, mas é a frieza normal de desconhecidos. Meus julgamentos sobre as pessoas e as facilidades de teto e emprego com toda certeza são influenciadas pelas minhas experiências. Quando solicitei a mobilidade acadêmica estava aberto o edital do Programa Santander pela UFRGS, que me garantiu 500 temers mensais para ajuda de custo e logo também comecei na minha bolsa de IC, que me garantem mais 450 temers, e ainda tem um auxílio para moradia, alimentação e transporte de 586 temers que logo sai o resultado, e me encaixo nas especificações de pobreza, então, tenho fé. Levando em consideração que moro razoavelmente perto e em dias e horários de sol, vou a pé para o campus e lá almoço no restaurante universitário, tenho uma renda razoável para sobreviver na terra da garoa. Claro que juntei um dinheiro para emergências e pretendo não ter que mexer nele, mas acho essencial ao menos essa medida quando topamos uma aventura sozinha em terra desconhecida. Sei que meus textos ainda descrevem Porto Alegre, pois deixei muita coisa lá. Não visitei muito esta cidade cinza, mas conheci um pouco de seu verde. O Parque Iberapuera é incrível e gigante, muito maior que a Redenção, e tem um museu bem no meio. Sobre o ar, sim, você enxerga o ar que respira. Bem, isso é um exagero, mas seu nariz sente sim a diferença, tanto que não consigo dormir sem tomar um remédio para respirar melhor. Ainda não experimentei o trânsito congestionado. Quando preciso fazer algum caminho mais longo, usamos o Uber que aqui se mostra uma opção barata e segura... Bem, estou pensando em fazer um blog apenas com estas experiências, contando coisas daqui, com fotos e dicas, mas por enquanto prometo novas histórias.

sábado, 3 de setembro de 2016

Canção de Queiti - uma alcatéia mística de uivos, bocejos e pontos de cesariana



As nuvens venciam o sol no céu das 9 horas de algum lugar. Este lugar que não é Paris mas tem toda pretensão de ser - um dia, quando for adulto - acolhe com ternura um rio, ou laguna, ou estuário. Suas curvas esculpidas pelo homem, por lipoesculturas de aterro e água para criar novos espaços lindos para pessoas de posses ancorarem seus barcos que custam mais que casas populares. Um estádio também. Hoje este estádio é branco com uma iluminação vermelha, e quando a lua vence o céu, um esplendor encarnado em forma de bergamota gigante se mostra imponente, à beira do rio, à beira do estuário, à beira de mais uma partida para se vencer ou empatar.

O calor inesperado vencia o inverno do Sul. Os livros de geografia do ensino fundamental relatam que aqui o clima é ameno no verão e inverno, chamam de clima sub-tropical. Coitados destes autores que escrevem suas teorias atrás da tela de um computador, sentados em poltronas anatômicas, fazendo pesquisas bibliográficas e acreditando nas coisas de 1900. Nunca saberão a imprevisibilidade dos invernos daqui, frios de 0 graus a verões; e verões metódicos de seus 40 graus e chuvas passageiras previstas pelos pontos nas barrigas de mães que pariram por cesariana, ou por joelhos cirurgiados. Até os pontos vencem as previsões do tempo por aqui, pois o sentir pode ser mais imediato que toda a lógica meteorológica de anos de pesquisas. Ninguém explica, assim como o bocejo que explicita a nossa mais profunda ancestralidade tribal - uma alcatéia mística de uivos, bocejos e pontos de cesariana. Ainda existem crendices que vencem a ciência.

Queiti resolveu fugir para a cidade de João pois não achava justo sempre ele ir até ela, ele estar a disposição dela, ele ficar a espera dela.

Sim, você deve estar se perguntando que diabo de nome é esse? É brasileiro? É estadunidense? É filha de semianalfabetos? Talvez. O nome dela é Queiti, se pronuncia como o nome da Katy Perry só que sem o Perry. Quando do registro, o tabelião informou aos pais que não eram permitidos caracteres estrangeiros como a letra K, e diante do som pronunciado pelos pais sugeriu a escrita QUEITI, que foi aceita prontamente, talvez por que quisessem mostrar para o tabelião que entendiam do assunto enquanto entendiam porra alguma, e mostrar segurança é uma boa técnica de autoafirmação e convencimento, ou, simplesmente gostaram do nome e ponto. Não saberemos o motivo, só saberemos que "Tabelião Wins"!

Voltando pra história... Queiti chegou àquela cidade desconhecida e procurou a praça, pois toda cidade do interior que se preze tem a praça, a igreja, a escola particular e o pequeno centro comercial, tudo isso no Bairro Centro, que por vezes realmente é o centro geométrico da região urbana da cidade. Ligou e enviou mensagens para João que não atendeu nem respondeu. Certamente se quem estivesse escrevendo esta história fosse Walcyr Carrasco ou outro Global iria descrever Queiti enlouquecida e desesperada pois João não atende, pois ele sumiu, pois ele deve estar com a Darlene (aquela vagabunda!), pois é claro, ele sofreu um acidente de carro e ficou paraplégico e todos nós aqui pensando mal do pobre e inocente João. Quando vejo cenas assim, logo imagino as mulheres loucas e descompensadas, e que certamente não iria querer uma mulher na minha vida. Daí lembro que sou mulher e não sou assim, que não preciso ser assim para me sentir mulher, pois sou, e me pergunto como, se existem tantas, mas tantas mulheres no mundo, porque as mulheres das novelas e dos filmes são sempre as mesmas? Ainda bem que isto aqui não é uma novela da Globo, e Queiti não é uma atriz que aceita papel de qualquer autorzinho. Queiti, sem ter para onde ir, sem conhecer ninguém naquela cidade além de João, pelas nuvens que ameaçavam cair em sua cabeça e pelo frio que vencia sua vestimenta, decidiu sentar no banco da praça e continuar a ler um dos dois livros que carregava em sua mochi-bolsa-casa. Sentou como aqueles senhores que estavam lá sentados lendo o seu Diário Gaúcho, se enchendo de colunas que afirmavam sua macheza, recortando o "recorte e ganhe" da vez, - um conjunto de xícaras - para suas "negas véias" como chamam suas esposas brancas que ainda brincam de casinha, só que agora brincam com seus 70 anos de esposinha, vovózinha, tiazinha e todas as inhas que uma senhora recatada e do lar deve ser. Bons senhores sentados nos bancos das praças, com seus jornais ou com as vidas alheias. Queiti era observada por eles. Algo ela tinha de estranho. Talvez porque estava lendo, ou porque era jovem, ou porque era estranha na cidade que todos se conhecem, mas tenho quase certeza que o motivo principal era ela ser uma jovem leitora desconhecida: mulher. Isso. Queiti observara com algum desconforto os olhares de desconforto. Percebeu que as mulheres dali estavam atravessando a praça, ou trabalhando levantando dados sobre uma pesquisa das eleições locais, ou com seus filhos na pracinha às suas costas. Com foco em sua leitura, a casca dourada de duas horas caiu ao chão e na desistência de esperar João naquele vento cortante, no cansaço do livro que está quase acabando desde que iniciara a leitura, e na procura de algum outro passatempo, ela guarda suas coisas convicta em caminhar por aí. Preto vem sorrindo em sua direção, um jovem de meia idade e olhos cor de mel. Diferente de todos naquela praça, ele não a observou ao longe pois assim que notou sua presença foi direto, atraído por algum carinho secreto que desconhecidos podem causar. Ela coçou seu pescoço ao se apresentar, e os olhos dele venceram os olhos negros dela. Sentimento fraterno à primeira vista, à primeira coçadinha. O cão atirou-se aos seus pés, prendendo no calor de seu peito o pé direito de Queiti, que namorava as batidas sinceras de um coração cachorro, tão cachorro quanto o coração de João, quanto o dela. O cão vencera a convicção de Queiti de abandonar a praça. O telefone toca. João com uma voz embriagada de sono ou cerveja fala apavorado seu melhor oi. Sim, seu idiota, ela estava na praça todo esse tempo que você dormia, e ela sabia que você ainda dormia pois ontem você foi dormir tarde após uns goles e uns papos altos. Ela tinha calculado o tamanho da inconsequência de ir a você sem avisar, sem dinheiro para voltar, sem medo de te amar. Ela sempre soube destas coisas todas e se você pedir desculpa por isso, ou pior, se você disser que isso não vai se repetir, que vai estar acordado, ou que ela precisa avisar, ser responsável ou previsível, ela ficaria triste e vendaria os olhos para o devir. Ainda bem que suas desculpas por estar dormindo soaram mais como um vício de linguagem do que como um pedido de desculpas.

João era guia turístico de sua cidade, assim como toda pessoa que vai apresentar a cidade em que cresceu para seus amigos. Ali, naquele prédio feio, branco com rosa é a prefeitura, ali naquele outro prédio tinha uma loja que minha mãe trabalhava, aqui fica um colégio particular e lá fica o outro, eles tem uma rivalidade e quando eu estudava na escola pública no médio, sempre ajudava o pessoal dessa escola aqui a avacalhar o pessoal da outra, ali são os bancos, mas você já viu, e essa praça aqui não era assim, foi reformada a pouco tempo. Ela responde que sobre a praça ter sido reformada ela já houvera descoberto, pois cada senhora que passava e via o Preto atirado sobre seu pé, após relatar que o Preto é lindo, olhava para os brinquedos da pracinha e diziam que a obra tinha ficado bonita. Queiti concordava com as senhoras e sorria, pois um sorriso cura muita coisa, vence muita coisa.

Queiti andava com o paladar um tanto estranho. Sentia gosto de cerveja no macarrão e de maconha no frango. A lentilha que ela ansiava no alto de sua fome, não satisfizera seu desejo, pois não era a sua lentilha. Era um belo restaurante e a sobremesa de morango fará Queiti retornar ao local num futuro próximo. Ou não. Havia uma folha de papel seda ou algum outro semelhante cobrindo as mesas, isso impedia que vestígios de almoços sujassem as toalhas de mesa que eram de cor bordô, além de proporcionar uma limpeza rápida, pois eram folhas descartáveis. As tais folhas, se riscadas com a unha ou um palito de madeira - destes que ficam sobre as mesas dos restaurantes para espalitar os dentes - ficam desenhadas, como se usassem canetas Bic sobre uma folha branca. Uma folha que esperava nada além de pedaços caídos de comida, comida desprezada a ser jogada fora, recebeu desenhos do garçom que roubava os pratos vazios das mesas e carregava na sua grande bandeja de alumínio, recebeu uns Fora Temer, elogios, assinaturas de outras pessoas, e filosofias recém pintadas pelo filósofo que dorme embaixo das camas. Queiti e João eram assim, um poço que começa em Porto Alegre, passa pela imaginação, pelo intelecto, pelos prazeres da carne e da arte, e que acaba num pôr do sol no Japão, pois todo tempo é tempo de pôr do sol em algum lugar.

O senado, comprado, vence Dilma. Dias tristes e de descrença. A democracia chora por mais um golpe que a vida dá. É isso, golpe! Sem crime de responsabilidade é GOLPE sim!

A polícia vence o ato. Vence com bombas de gás de pimenta, bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha. É só tiro, porrada e bomba como diz Valeska, e também é só uma página infeliz da nossa história, uma tentativa de acordar a nossa Pátria mãe tão distraída como bem professou o Chico em suas canções apocalípticas. A polícia venceu, calou as palavras de ordem ontem, hoje, amanhã. Até quando ela vencerá?

Queiti não sabia, mas tinha andado até perto da casa de João antes de ter ido ao centro. João tenta arrumar a casa que estava fechada a algum tempo, se preocupa em oferecer algum conforto pra ela. Ela não estava muito preocupada com que iria encontrar lá, que casa iria encontrar, pois se alguma marotona de atravessar a metrópole foi feita por ela, foi justamente para vê-lo, tê-lo, sentí-lo, e isso ela alcançou. João teimava alguma incerteza, apoquentava seu tom de voz e terminava dando ombros com um "é isso!". Da toca do coelho a única coisa que importava para ela era o coelho. Ele deitou-se ao lado dela, enroscaram as pernas, olharam para os 8 pássaros desenhados no varal da parede, 8 desenhos diferentes do mesmo pássaro cinza. Ela viu que por baixo da pintura atual, tinha algum verso escrito, mas não que ela seja uma observadora de coisas muito boa, ela só gosta de ver o que tem por baixo das etiquetas de promoção. Se for para observar, Queiti escolheria observar as pessoas. João também. Por isso eles se gostam. Inclusive por isso. Para além, bem, vocês podem imaginar. Não podem? Hum... Ok. Vou continuar a história. Ele reclama que estão tortos na cama, tudo desculpa descarada para ter espaço de movimentarem-se melhor. Os beijos ficam quentes muito rápido. As calças desaparecem como por um toque mágico de um mágico atrapalhado. Quem inventou as calças skinny? Ela de regata justa branca, calcinha e corrente da mão de Hamsá; ele de camiseta cinza, todos seus hormônios e dedos. Como um homem de pensamentos tão doces pode ter um sabor salgado, amargo, umami? Após uma ou duas horas, saciam-se um ao outro, juntos, cansados, exaustos, satisfeitos.

Os músculos de Queiti doem, hoje, não pelo sexo, mas pelos protestos e tensões das fugas do dia anterior. Ela havia dormido só três horas à noite. O despertador venceu sua sede pelo aconchego da cama.

E o apego repetitivo pela vitória, pelo vencer? A vitória só existe em detrimento do outro. Vencer cria dois subconjuntos distintos: nós, os que vencemos; eles, os que perdem. E posso apostar que nesse jogo ninguém quer sair perdendo.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sociedade Instantânea

Em alguma realidade, num tempo não distante. Passado, futuro ou presente. Pequenos humanos eram encaminhados para o Centro de Capacitação da Utilidade (CECAU). De lá, saíam quando atingiam a Maturidade da Utilidade - idade variável para cada indivíduo - para ser unidade de trabalho da incrível Sociedade Instantânea. Também existiam os Inúteis, nome dado aos indivíduos que não se enquadravam ao perfil do CECAU, e por consequência, viviam à margem da Sociedade, quase invisíveis. Quem coordenava a CECAU era uma humana muito bela e racional, de nome Focus. Quando Focus passava entre os corredores frios das salas de capacitação, todos tremiam, capacitadores e capacitandos. Sua beleza em momento algum amenizava a sua imagem de poder e interferência em vidas alheias.

Eduarda estava a poucos passos da Maturidade e logo descobriria onde a designariam como útil. Tinha enorme vontade em ser útil nos hospitais. Acreditava que lá existia uma possibilidade de ajudar alguma vida, de alguma forma mais contemplativa que conveniente. Mas como diria sua mãe “nem sempre se pode ser o que se quer” e a CECAU definiu sua utilidade em ser capacitadora. Eduarda sempre ouviu falar que para ser capacitadora precisa ter nascido para isso, com uma espécie de dom sagrado, proveniente de uma força alheia a sua compreensão. Eduarda nunca foi tocada por Focus.

Outra característica de Focus era o seu poder. Ela carregava nas mãos a incrível capacidade do acreditar. Os muitos humanos que eram tocados por Focus conseguiam ver a magnitude de seus pensamentos de tal forma que não havia outra possibilidade diferente a não ser acreditar nas coisas que Focus via como verdade.

Eduarda, inconformada com sua utilidade, se questiona sobre a autoridade de Focus e sobre a soberania da Sociedade Instantânea.

- Quem conta as verdades em que a Focus acredita? - Se pergunta Eduarda, sozinha.

Sabendo que a maioria das pessoas que conhecia haviam sido tocadas por Focus em algum momento de suas vidas, Eduarda guardou suas dúvidas consigo até ver um invisível. Marco era um homem de pensamento rápido, interrogativo e desconfiado. Fora nomeado como Inútil aos 12 anos de idade quando fazia muitas perguntas aos capacitadores e até a Focus. Focus tentou tocá-lo muitas vezes, sem sucesso. A primeira oportunidade que tivera, fugiu da CECAU. Não muito preocupado com seus rótulos, Marco escrevia e fazia músicas, muitas músicas. Levava a vida com restos de comida e frutas das árvores dos vizinhos. Dormia num barraco junto de outros invisíveis. Eduarda nunca tivera ouvido músicas em sua vida, nem tivera a oportunidade de saber que elas existiam. Seus olhos, tomados por alguma emoção, explicaram a Marco que havia força em sua arte.

- Ser invisível tem suas vantagens. - Explica Marco. - Olhe aquelas pessoas! - Ele aponta para as pessoas que estavam saindo de um grande prédio para o horário de almoço. - Eles tem hora para almoçar, já tem definido o que devem comer, o que devem vestir, o que podem pensar, e provavelmente, um dia, quando sua utilidade não tiver mesma potência, em qual pedaço de terra seus corpos serão enterrados.

- De onde você tira essas palavras? - indaga Eduarda.

- Duda, posso te chamar assim? Eu observo! Sou um observador, sou a dúvida desta Sociedade, sou a prova que não é preciso ser mão-de-obra para alguém ficar rico. Sou a minha casa, a minha comida, a minha música.

- E como você aprendeu essas músicas? Como você fez esta ferramenta de som?

- Isto é um violão! Como o violão não gera renda para alguém, o cara que o inventou foi nomeado como Inútil aos 14 anos. Caetano é um dos invisíveis mais velhos do barraco. Ele é magnífico!

Eduarda permanecia chocada com todas aquelas informações negadas pela CECAU como úteis. Como poderia ser inútil tamanha beleza? E a alegria que emanava daquela sequência de sons poderia ser assim tão facilmente desprezada? Esquecida não seria, ao menos, não mais por Eduarda. 

- O que você acha da Focus? - perguntou Eduarda.

- Tenho pena dela.

- Como assim pena?! Ela faz da vida das pessoas o que ela acredita que é certo, pior, ela faz as pessoas acreditarem que o que ela pensa é certo. Os capacitadores são escravizados por ela. A maioria dos capacitandos almejam ser escolhidos por ela. Acreditam que assim são especiais, que mereceram receber a verdade...
Marco interrompe o discurso:

- Eu sei de tudo isso. Ainda tenho pena dela. - silêncio - Você já se perguntou quem conta as verdades que a Focus acredita?

Sentindo-se em sintonia com aquele invisível, Eduarda entende a tal pena que Marco se refere.

- Sim. Me perguntei isso pela primeira vez no exato dia que te conheci, há 3 meses. - os dois se olham como que se estivessem a descobrir um planeta habitável a ponto de explodir. Ela continua. - Em 65 dias entro em sala, fui definida capacitadora.

- O que você acha disso?

- Acho que sou enfermeira.

- E o que vai fazer?

- Tenho 65 dias para descobrir. Me ajuda?

- Vou ver em minha agenda… Nada para segunda… Nada para terça… Acho que posso te encaixar na terça!

Eles riem. 

- Você é a droga de um desocupado! 

- Sim, só tenho vantagens. Sabe qual a outra vantagem de ser invisível: ser invisível!

De fato, todos os tocados pela Focus, inclusive a Focus, não conseguem ver os declarados Inúteis. Isto permite trânsito livre, ou quase isso. A dupla tramou o plano básico de um detetive: seguir, observar a rotina, ouvir conversas. Com algumas habilidades tecnológicas foi possível encaminhar e-mails e ativar webcams, o que facilitou o serviço. Reuniões com homens e seus ternos alinhados, essa era a vida de Focus. Mas quem eram aqueles homens? Quem seria rico o suficiente para ter ternos com aqueles cortes? 

- Eu acho que conheço aquele ali de terno com riscas. É o dono do Banco Capital!

- O de terno verde musgo eu conheço. Era o chefe da minha mãe. Ele é o dono dos Laboratórios Tento! - diz Marco.

- Certeza que eles todos devem ter sido tocados pela Focus. Entra na sala e escuta o que eles estão conversando.

- Não sei se é seguro.

- Claro que é. Vai ser medroso? Estamos prestes a descobrir o que tem de mais instantâneo nessa sociedade!

- Okay.

Marco saiu do jardim e pela porta dos fundos, entrou no prédio. Na sala de reuniões, entrou atrás da moça que carregava o café. Poucos segundos foram o suficiente para ele entender tudo. Aquele era o grupo que dava as verdades para Focus acreditar! A moça do café sai e Marco permanece ali parado, ouvindo.

- Ajudante, saia com a copeira! - Disse o dono do Banco, para a surpresa de Marco.

- Fique! Você não é o filho da Amélia? Ele é um inútil! Prendam-no! - Disse o ex-chefe da mãe de Marco.

Aproveitando-se da agilidade da juventude, Marco sai correndo do prédio, pronto para contar tudo o que viu a Eduarda e ao mundo. Eduarda não estava mais escondida nos jardins. Onde está Eduarda? 


CRÍTICA DA CRÔNICA SOCIEDADE INSTANTÂNEA

Embebidos em regras enevoadas de conduta de gênero, cor, credo e tempo, seguimos nossas vidas com alguma esperança. Alimentados por um sentimento de segregação, superioridade e por consequência, inferioridade, seguimos nossos acordos sociais diários. Inclusive, na Escola. Partindo do ponto que a Escola que experienciamos hoje segue os erros e acertos da nossa sociedade, podemos afirmar que ela passa longe da skholé que idealiza J. Masschelein (KOHAN, 2015). Guiados pelo artigo Um exercício que faz escola: notas para pensar a investigação educacional a partir de uma experiência de formação no Rio de Janeiro, convido-vos a fazermos uma breve reflexão da crônica Sociedade Instantânea, relacionando-a como uma caricatura do sistema de ensino.

No texto, podemos perceber a personagem Focus com uma interessante personalidade, que pouco fala e ao mesmo, utiliza-se de outros artifícios para convencer todos que passam pela Instituição a qual coordena. Estes artifícios vão desde a utilização de seu poder sobrenatural, até outras formas mais sutis de coerção, como seu poder de prestígio e autoridade. Podemos também reconhecer a crença de uma sociedade que privilegia a rapidez como eficiência e mérito, e com isso, ser tocado pela Focus gera uma busca: o alcançar de um status superior. Por outro lado, gera passividade, pois não existem mais questões de dúvidas e pluralidade de pensamentos, e sim, a unicidade de uma verdade. A problemática da crônica gira em torno da insatisfação da personagem Eduarda com sua função de utilidade que não coincide com o íntimo de sua vontade. Esta insatisfação faz Eduarda questionar a autoridade de Focus e por consequência a origem de suas verdades. Neste cenário, Eduarda conhece Marco, um garoto marginalizado pela sociedade por não compreender, aceitar ou se encaixar as suas regras. Os dois cultivaram uma amizade. Elementos comuns à nossa cultura atual como a música e a literatura eram classificadas como inúteis na Sociedade Instantânea, visto que são integrantes do conjunto das artes e não geram retorno financeiro imediato, como, por exemplo, um martelo. À margem, elementos artísticos eram encontrados facilmente, o que potencializou as dúvidas de Eduarda, visto que ela se surpreendeu com tamanha beleza classificada como desnecessária. Até este momento, é possível classificar Focus como a vilã da história, porém Eduarda e Marco descobrem que ela era apenas uma ferramenta de controle dos verdadeiros vilões: os ultra-ricos.

Podemos fazer uma analogia da personagem Focus com o currículo escolar, que por muitos professores e/ou escolas, é encarado como que para ser seguido numa orientação encapsulada da verdade. Com isso, podemos verificar uma crítica aos modelos de educação desde a criação da escolarização, com uma escola e currículo para os filhos dos operários se tornarem bons operários, outra escola e outro currículo para os filhos dos burgueses se tornarem bons administradores. No momento que é feita a decisão do que se deve estudar, escolhe-se diretamente o que não se deve estudar. Nos tempos atuais, tempos de repensar a educação, o currículo ainda se impõe com tamanha autoridade? Será que um currículo único compreende todas as pluralidades culturais das diferentes regiões do nosso imenso país? Quem cria o currículo? As pessoas que criam o currículo atual são isentas de interesses e coerções sociais?

Outra característica a ser observada é a passagem do tempo. Marco disserta que as pessoas classificadas como úteis tinham suas vidas planejadas, no ritmo que a sociedade julga ser justo. Vidas ditadas por Chronos. Antagônico a isso, Marco viveu desde muito jovem à sorte do sem tempo, sem relógio, sem compromissos quantificados por outrem. Aprendeu sem estar numa instituição de ensino, com os mais velhos, os da mesma idade e os mais jovens. Sua classificação permitiu-lhe encontrar o acaso de aprendizagens inenarráveis. Não seria esta a escola de Masschelein? Suspenso do campo social, ele e todos com os quais tinha contato. Profano, a medida que desde jovem questionou o sagrado. Atento aos seus interesses e liberdades, sem buscar uma preparação para um dia viver, e sim, vivendo. E por fim, compartilhando o amor de estar e pertencer a algum espaço-tempo, comum e belo, com seus semelhantes. Como disse Kohan (2015)
“(“Passar-ela: é um prazer não estar, mas estar entre”). Estar entre, uma paixão, um prazer, uma devoção no curso: andar a caminho, entre, nas pontes, nas entrevias, nos caminhos, andar, andar e andar, estar a caminho, estar entre, caminhar entre, educar entre, entre-educar.”
Você pode baixar o texto da referência clicando aqui.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KOHAN, Walter. Um exercício que faz escola: notas para pensar a investigação educacional a partir de uma experiência de formação no Rio de Janeiro. In: Educ. foco, Juiz de Fora, v. 20, n. 1, mar. 2015 / jun. 2015. p. 141-158

terça-feira, 12 de julho de 2016

Em brasa


O ônibus empoeirado fazia perceber a importância dos pelos dentro do nariz. Desceu. O vento batia em seu rosto como um ataque de pássaros de gelo enfurecidos, quase a rasgar a pele fina, cor de papelão abandonado. Um queria sanduíche. Outro, queria comer aquela rua inteira numa só mordida saborosa de canções, cervejas e poesia. Talharim. Carbonara e quatro queijos. Ninguém acertou o chute do almoço, pois cardápios devem ser feitos de fome com uma pitada de algum tempero que te convença a mudar de opinião. Não bastasse a cobiça sobre os pratos dos outros quando passava entre as pessoas que almoçavam satisfeitas. Como não cobiçar os prazeres da vida? "Cobice-me!" pensava ela. Não se sabe como o diálogo começara. Foi sobre a câmera ou sobre sua visão que não ajudava sempre que lhe roubavam os óculos. Não eram pássaros naquela árvore, eram os próprios frutos da árvore. Que árvore era aquela? Sabe-se que não era um jacarandá ou um abacateiro. Dos não abacates para uma vontade louca de pular sobre seu colo e lhe afogar em beijos. Vontade de sentir o sexo quente pulsando em sua boca. Permaneceram parados, dominando suas vontades e imaginações. Não se sabe como o fluxo dessas conversas funciona. Talvez sejam eles boas cobaias para testar uma árvore criativa dos diálogos humanos infindáveis. Chatterbots. São máquinas de sentir e tagarelar. O tempo é encurtado pela velocidade das palavras selecionadas e derrubadas de um sobre o outro.
- Outra cerveja? - pergunta o garçom.
- Que horas fecha lá no aeroporto?
- É. Acho melhor irmos. - ela olha para o garçom - Não queremos outra, já estamos indo.
Escolheram passar por dentro do Mercado Público. Cheiros misturados. Imagens misturadas. De sorvete à pele de porco. Deram de encontro com a entrada do metrô.
- Direita ou esquerda?
- Esquerda. Sempre esquerda.
- Não sei por que ainda pergunto.
Bilhetes comprados. Uma exposição de fotografias naqueles corredores subterrâneos e apressados. A esquerda nem sempre é o caminho mais fácil. Enquanto nela tínhamos uma escada com consideráveis degraus, à direita tínhamos a escada rolante. Resistir às tentações da direita: dever cumprido. Os vagões estavam diferentes que antes, agora eram todos interligados de modo que era possível caminhar livremente do primeiro ao último vagão com as mãos no bolso. Resolveram ficar parados, admirando um ao outro ao pé do ouvido. Um suspiro quente envolveu o lóbulo de sua orelha e eriçou todo o lado direito do corpo dela. Num sussurro rouco ele disse:
- O preço do dólar caiu...
Eles riram. Ela estava gostando da brincadeira. Tinham algo excitante em algo nada excitante. O jogo de hálitos febris sobre a derme continua.
- Fala mais sobre isso. - disse ela.
- Casa Branca...
- Casas Bahia... - sussurrou ela no ouvido dele.
Eles se afastaram para enxergar os olhares, sorriram e riram mais uma vez. Interrompidos pela narração da estação aeroporto, desceram.
- Eu não vou entrar nisso aí, não tem nem motorista! - disse ele com alguma ironia referindo-se ao aeromóvel.
Embora o transporte fosse lento, era seguro, eficiente e o principal, gratuito. Chegaram ao aeroporto. Podiam ver o antigo e o novo. Existe uma história que o antigo é o novo e o novo é o antigo reformado, mas nunca entendi isso direito. Nem eles. Dentro, foram comprar os bilhetes para a viagem que tanto esperavam fazer juntos. Planejavam não ter um planejamento muito planejado, apenas o suficiente para não morrer de fome e frio. O resto é sorte ou acaso, como sempre. Para tornar as coisas mais importantes ou complicadas, existe um tal de limite diário no débito e até no boleto para pagar no caixa eletrônico. Não importa que você tenha o dinheiro, vive não pode usá-lo. Precisavam de uma agência. Foram até a mais próxima, em Canoas. Portas eletrônicas são as rivais naturais das mochilas em dias de inverno chuvoso. Percebendo a garota mais desajeitada da quadra, o guarda resolveu colaborar. Pediu para mostrar a mochila aberta e a deixou passar. Ela sorriu e agradeceu a piedade. No caixa, mesmo tendo sua digital e senhas, era preciso de um documento original com foto. Nada feito. Nada de bilhetes. Frustrados, foram para o metrô.
- Eu não sei onde enfiei minha identidade! - reclama ela, com alguma tortura. Ela tem uma ideia para parar o martírio. - Já sei! Vamos até a Unisinos? Nunca fui lá.
- Você quer? Dá tempo?
Ela olha o relógio. Eles não tem muito mais tempo. Ela tinha outro compromisso.
- Fazemos a seguinte condição: se o trem que vai para a Unisinos não tiver lugar para sentar, não vamos; se tiver, vamos.
- Ah! Como é bom andar com matemáticos! Eles fazem uma condição e resolvem toda a vida!
- Nem vem! Programação tem mais condições que matemática! Sql também. Também?
- Também.
O vagão estava lotado. Então, voltaram ao Mercado. Eles caminharam até o Majestic por um caminho que ela não costumava fazer. De lá, era possível ver o antigo hotel ao longe, com suas luzes, seu rosa, seus detalhes arquitetônicos. Namoraram aquela fotografia linda, perfeita para um filme de Wes Anderson. Eram amantes das cenas desta cidade. Certamente, amantes das cenas de tantas outras.
Recepcionados por duas estudantes que fizeram questão de se identificar como estudantes da UFRGS, responderam, voluntariamente, uma pesquisa sobre cultura. Mas afinal, o que é cultura? Essa pergunta era deles e não das estudantes. Elas estavam mais preocupadas em saber se os dois compravam ou não elementos culturais. Para surpresa da jovem, responderam que preferiam fazer ou roubar elementos culturais por aí. Pegaram o elevador até o quarto andar para tentar achar uma exposição de arte. Subiram e desceram as escadas tantas vezes que eu perdi as contas de qual andar esses dois foram parar. No andar das artes cênicas havia um salão com as paredes de espelho. A porta principal, de vidro, estava trancada e as luzes estavam acessas. Olharam para o salão com o sentimento de querer explorá-lo, mesmo vendo que pouco havia para ser explorado. Desistiram. Mais a frente estava uma exposição de fotos de pessoas gaúchas com importância nacional, acredito que eram todos atores e atrizes. Eles se separaram perdidos em meio tantos rostos nas paredes. Alguns eram pedaços de jornais com alguma informação sobre a pessoa. Ela lia quando ele a chama para ver o que tinha descoberto. Um corredor que levava até uma porta-balcão do salão dos espelhos. Esta porta estava aberta. Dentro do salão, na parte que não era possível ver da porta de vidro, havia um piano vertical, cadeiras, barras para ballet, um rádio antigo, e uma caixa de som, sendo os dois últimos acorrentados à parede. Ali, com a ausência do vento frio de Porto Alegre, a temperatura estava agradável. Ela abandonou seu casaco sobre o piano e foi tentar colocar o pé sobre as barras. Ele, embora magro e alto, teve bastante dificuldade para imitá-la, isso que ela não teve movimentos graciosos, muito pelo contrário. Abriram o piano e tentaram tocar algumas notas, fazer alguns acordes. Haviam três pedais no piano, os quais não descobriram a função mesmo após vários testes. Nada mais foi tocado além de um do-ré-mi-fá-fá-fá. Enquanto ele expressava sua suposta raiva com as notas mais graves do piano, ela pensava em onde estavam os interruptores para apagar as luzes. Ela procurou ao lado das portas, e nada tinha. Observou para onde levavam os caminhos feitos pelos fios das lâmpadas. Colado na porta a qual usaram para adentrar a sala, estava um aviso solicitando para apagar as luzes após o uso. Ela pensou sobre as possibilidades: i) as pessoas que estavam usando a sala saíram para um intervalo e logo voltariam; ii) as pessoas que usaram a sala se foram e esqueceram ou não acharam onde apagar as luzes. Em ambas as situações, havia uma possibilidade muito grande de os guardas virem apagar as luzes, visto que às dezoito horas a maior parte da Casa de Cultura adormecia. A melhor solução para não serem expulsos dali seria apagar as luzes, como queria fazer antes, só por fazer. Na parede a sua direita havia uma tampa, e atrás da tampa muitos interruptores com fitas crepe e palavras escritas. Ela não entendia o significado de tantos nomes técnicos para a iluminação. Testou todos e conseguiu apagar as luzes do salão, mas teve medo de apagar todo o Majestic por engano. Caminhou até o piano novamente.
- A gente podia morar aqui. Aqui seria o quarto.
- Podia sim. Mas aqui teria de ser a cozinha. O quarto seria ali, bem no meio, de frente para os espelhos e visível a todas as portas.
- Hum... pode ser, pode ser... transaríamos para todos!
- Isso! Essa é uma das nossas artes! Temos que fazer uma exposição do nosso sexo!
Ele se levanta e a beija. Um beijo longo e cheio de línguas. Suas respirações logo ficaram apressadas. Seus corpos ficaram quentes como se uma corrente elétrica estivesse atravessando-os. Se apoiaram ao amontoado de cadeiras empilhadas, de modo que ela ficou entre as pilhas e ele. Pela proximidade dos corpos ela já sentira que seu pau estava duro, mas preferiu não atacá-lo na velocidade de arranque de uma Ferrari. Ela estava se sentindo desejada por aquele homem. Ele estava querendo o que ela estava querendo. Ela queria chupá-lo. Sem ser dita uma palavra ele tratou de deixar claro que gosta de Ferraris. Pegou a mão direita dela e colocou sobre a calça. Agora ela podia medir cada milímetro de seu membro com o toque de sua mão sobre o jeans preto. Enquanto as mãos dela tentavam sentir o movimento daquele homem, as mãos dele se fartavam na bunda dela. Ele a amassava como um padeiro ao pão mais sovado da face da Terra. Ela lembrava de tantas outras vezes que ele lhe chupava e lambia inteira. Lembrava da voracidade que ele comia e lambusava sua bunda. Ele abre a calça jeans. Ela tira o membro dele para fora, lambe sua própria mão e o acaricia, por vezes, oscilando a velocidade. Ela num frenesi de idéias, vontades e movimentos, se pergunta quando ele vai ter coragem de meter gostoso em seu cú. Eles escutam um estalo e espiam pelos espelhos se alguém havia chegado, mas era apenas o assoalho de madeira trabalhando. Querendo ter aquele homem dentro dela de alguma maneira, ela se ajoelha a frente dele e engole seu pau com a mesma fervorosidade de uma beata quando encontra seu Deus. Ela sugava seu membro rígido e se deliciava deste tesão em local proibido. Ela pedia em silêncio que ele gozasse em sua boca. Queria descobrir o sabor máximo de seu sexo, seu delicioso sexo. Em um breve momento de lucidez, eles decidem parar o feito. Ele guarda seus documentos e caminha todo errado até a cadeira do piano. Senta. Ela de pé, se enverga apoiando os cotovelos sobre o piano, deixando o quadril ligeiramente deslocado para a frente.
- Eu queria muito você dentro de mim agora...
Ele se levanta, beija sua nuca e com sua voz rouca de vinte e poucos anos de cigarros diz:
- Hum... eu quero estar dentro de você de todas as formas possíveis...

Mal sabe ele que já está dentro dela da forma mais profunda que alguém pode chegar. No âmago do seu ser-sentir. Na alma.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

(O meu amor - Chico Buarque)

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Corrente do Mal - It Follows




Olá, pessoinhas!
Acho que nunca escrevi nada aqui falando diretamente com vocês, mas quero que saibam que sou mais do que textos enormes e tirinhas sem sentido... Acho... Penso... Rezo...
Queria contar pra vocês de um filme de terror que vi recentemente.
O nome é Corrente do Mal (It Follows, em eslovaco) e se trata daquele tipo de filme de "maldição".
Eu não costumo gostar de filmes de terror, e sempre assisto com companhia pra ficar zoando e tentar evitar o medo, mas esse filme me deixou abismado pela sua qualidade.
Nada dos corriqueiros "jump scares" (coisas saltando na sua cara pra fazer seu orifício piscar), e muito daquela saudável e gostosa tensão psicológica.
E do que se trata?
É um filme de "monstro sobrenatural", no qual é retratada uma certa maldição que é passada através do sexo. A pessoa "infectada" está sendo seguida por uma coisa que assume a forma de diferentes pessoas. Essa coisa não corre, mas caminha na direção da pessoa, e se ela te pegar... Digamos que não é nada bonito.
Como se livrar dela? Passando adiante! Ah, mas tem um detalhe. Se a pessoa morrer pra quem você passou morrer, a coisa vai ir atrás da próxima pessoa na "corrente".
Eu não quero falar muito mais agora para não dar spoiler, mas vou comentar algumas coisas para quem já viu.
Assista essa bela película e clique em "Continuar lendo" para ver minha análise um pouco mais detalhada sobre o filme.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

E viveram felizes para sempre

Pra mim ser feliz para sempre é correr rua.
Ver gente.
Jogar conversa fora.
Beber.
Dançar.
Transar.
Ouvir Chico.
Aprender esse mundo todo aí.
Criar!
Quero línguas novas.
Quero duplos sentidos.
Quero tudo que o dinheiro não compra.
Quero roubar frutas de árvores dos pátios dos vizinhos.
Quero amassos quentes em locais proibidos.
Não sei se vou querer isso tudo sempre.
Mas desde sempre quero isso.

domingo, 26 de junho de 2016

Espaço-Tempo



- O quanto mais podemos falar sem falar o que queremos?

- O quanto mais QUEREMOS falar sem falar o que PODEMOS?

Alberto Burnman é um homem febril, de saúde frágil e sonhos lúcidos.
Burnman, de pensamentos emaranhados, transversais e de algum modo, lineares.
Burnman, de dentes, línguas e palavras afiadas.
Burnman, de sonetos acordados, de acordes sem acordos, de cordas com nós feitos nos bolsos como fossem fones.

- Isso é relativo. O tempo, nosso vilão favorito, nos dá uma percepção passiva do passado. Diminui, esfria, apequena.

- É... tempo como forma de distância, espaço-tempo. Um afastar para um olhar, um procurar.

- Uma busca!

- Isso! Uma busca!

Sabe quando médicos fazem uma piada que só eles riem e todo mundo que está a volta fica olhando sem entender? Uma espécie de acordo silencioso e com alguma graça? Pois bem, uma sintonia de mesma espécie preencheu o ar e os olhares dos dois naquela mesinha simpática e apertada. Sorriram.

- Então, eu vou pedir um hidromel.

Ele ri:

- Te acompanho!

Ele olha para a moça que atendia no bar. A moça estava olhando, já a espera do pedido.

Burnman, feito de poeira intergaláctica, doces e cigarros.
Burnman, observador de adereços e seus donos em festas lotadas.
Burnman, a última bergamota viva da fruteira, implorando por ser roubada numa tarde de quarta-feira.
Burnman, de dupla identidade e simples assinatura de iniciais.
Autor, diretor, produtor e intérprete do pacato monólogo de fogo da sua vida.

- O que quer fazer agora?

- Acho que podemos ir a algum lugar que venda cerveja mas não pareça tanto que querem só nos vender cerveja. - Visivelmente a atenção excessiva da garçonete em perguntar se estava tudo certo incomodou.

- Conheço um bar, só não sei se está aberto hoje.

- Ótimo! Esse é perfeito!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Companhia



Era um apartamento bem pequeno, em uma espécie de condomínio do subúrbio. Shade vivia ali havia cerca de dois anos e a cada dia que passava, tinha mais dificuldade de lembrar como era sua vida antes de se acomodar àquela rotina. Sua esposa o deixara havia bem mais tempo e, depois de vários brigas jurídicas, havia ganhado o antigo apartamento que ambos se esforçaram tanto para quitar. Ela então passara a viver com o novo namorado e Shade se mudara para bem longe. Shade entrou em seu apartamento e cumprimentou Moony. A garota de cerca de vinte anos o saudou com sua energia infinita e um sorriso enorme.
- Fiz carinho num gato hoje! - ela disparou - Tinha uma mancha no olho como um mini-panda!
- Legal - comentou Shade, tirando as botas embarradas e as depositando perto da porta, ao lado de onde escorara o guarda-chuva.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Integral


Não gosto de crer que precisamos de algo ou alguém. Somos ótimos sozinhos, e por isso, inclusive e majoritariamente por isso, juntos somos incríveis. Talvez, isso nos una de alguma forma. Veja, os outros precisam de mim por um motivo ou outro. Você não precisa. Você quer estar. É diferente. É denso e liberto. Egoísmo? Você pode ver assim. Mas não é assim que nos leio.

Estava conversando com o Guido sobre o que é ser pós moderno. Ele me veio com uma história curta e pra mim, cheia de frutos. Contou que na época da Escola - Brooklyn, 1979 - tinha muita dificuldade em literatura, pois sempre confundia os períodos literários... o que veio primeiro? Barroco, Romantismo, Parnasianismo? Sabe, essas tantas coisas do tempo que perpassam as horas. Então o professor disse, "Não fique nervoso. Novos movimentos só surgem para se opor aos movimentos atuais. Do contrário, serão ainda o movimento atual. Mais do mesmo."

Com isso, após um longo período de sentimentos, vem a razão. Depois de longo período racional, vem o sentir... E é assim que funciona. Fechado. Cíclico.

Guido arrematou o assunto dizendo que após o período lógico da modernidade, da ordem, de generalizações, de métodos, de controle, de leis imutáveis, havia uma necessidade pela pós-modernidade. Ou seja, o tédio do moderno, do morno, do construído, deixa o caminho livre para a práxis do calor, do permitir, do reinventar, do frenesi da desordem de cores, nomes e amores...

Claro, como disse, Guido foi rápido e simples em suas colocações. A ideia é dele, as divagações são minhas. Ou melhor, são você. Você me faz pós-moderna. Não que eu precise - talvez precise. Confesso que os raios gama da modernidade ainda me assombram. Fragmentos da longa exposição desta ordem temida e bem escriturada.

Bem... retomando sobre o moderno e o pós-moderno, acredito que meus picos de modernidade fazem eu temer meu gostar por ti. Mas meus vales pós-modernos fazem eu gostar de te gostar, esquecer de te esquecer, e fazem eu querer te roubar para me entregar. Uma melodia de você. Integral. Integral em todos seus sentidos. Orgânico. Pleno. Matemático.

Você é uma abcissa.
Eu, uma ordenada.
Bem, temos um plano.
Cartesiano!
Juntas - nossas ideias
são uma função.
Como medir nossa imaginação?
Integre.

- Tenho alguma consciência que fui depositando peso em minhas palavras, uma forma de diminuir nossa distância, de que minhas palavras sejam meus olhos e meu corpo a você... mas, ainda me restava dúvidas se devia assim, me declarar a você, tão nítido, tão frágil... Gosto deste eu apaixonado. Gosto de como você me faz isso. Gosto mesmo disto tudo... Não sei ser mais ou menos com você.

- Não seja.