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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Cidade


Sinto a cidade como se fosse um corpo. Um organismo vivo e apaixonado. Uma súplica por um amor encontrado numa noite sem pretensão. Sinto o inspirar e o suspirar como a palpitação rápida do meu coração ao subir as escadas da casa. Sinto a cidade como se fosse um corpo: o meu. Esperando para ser explorado, descoberto, experimentado.

O sol das três e meia da tarde caia sobre as ruas feitas de memórias e pedras cuidadosamente alocadas à mão sobre um terreno-palco para grandes amores, pedras cuidadosamente desgastadas pelos tempo que se foi, e pelo tempo que há de vir. O sol trazia um cheiro familiar. O fumo, o frio, o sol, o branco e amarelo das paredes das casas, o cinza dos longos casacos, e os cachecóis que mais parecem cobertores por volta do pescoço das mulheres, tão lindas e tão pequenas. Realmente elas são miúdas. Eu não, mas mesmo assim teimam por me chamar. O charme do disparar das palavras - palavras escolhidas pelo hábito - parecem surrealmente esculpidas para agradar o meu ouvir. Corriqueiras e ao mesmo belas ao serem proferidas por lábios tão pequenos e doces, como os dele. Era só mais um dia comum, de uma fuga comum, pois não importa em qual lado do Atlântico eu esteja, sempre encontro algo para fugir. As ruas estavam enfeitadas para o Natal. Num pequeno largo que aqui chamam de praça, haviam inúmeras árvores feitas de materiais alternativos, desde garrafas, a esponjas e livros.

- É uma pena, mas em breve estas árvores não mais estarão aqui.

- De onde venho, seria só o esforço de colocá-las para não mais estarem. O povo do Brasil é mais rápido!

As comparações surgem a todo momento. É inevitável. Ok, tenho saudade! Mas surpreendentemente, não das pessoas, e sim do que é nosso, nossa comida, nosso sotaque característico, nossa cultura tão plural. Sinto saudade das ruas de Porto Alegre, mesmo tendo em Évora uma cidade que me abraça, que me aquece. Saudade nem sempre exprime vontade de ter de volta, e a vontade de ter de volta nem sempre vem cheia de saudade. Em algum lugar da internet definem saudade como sentimento de mágoa e nostalgia, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação, mas não sei se concordo plenamente com esta definição. E no final, todas as línguas não passam disso: definições. Regras encadeadas para significar o que se sente. Um universo simbólico de representação da cabeça humana. Será que somos os únicos animais a terem tal sistema? Ao menos, com tamanha complexidade, acredito que sim. E assim, na sua origem mais remota, entre o serpentear de um pré-latim e do pensamento, surge latente, uma língua: elemento máximo necessário para caracterização de uma cultura. Como me encontrar numa cultura que não é minha? Simples, perca-se.

- E então, tornou-se hábito andar assim?

- Não é hábito! É que hoje saí atrasada. Coloquei o vestido logo que acordei e não daria tempo de tirar e recolocar o vestido, só para estar adequada. Um lenço e um casaco são mais rápidos e disfarçam na mesma!

Parece inevitável o procurar da mão sobre o fino tecido. E mais uma vez, o arrepio do seio vence a moda. Gosto da correnteza que rege o meu corpo, natural como deve ser. Gosto como sinto essa cidade.

- Estou atrasado...

- Me deixa aqui. Não tem problema.

- Mesmo?!

O beijo rápido e silencioso justaposto com o abrir da porta afirma que realmente não existe problema algum. Se ele soubesse que com o fechar da porta depois do "A gente se fala daqui um bocado!" eu teria o prazer de poder participar desta fotografia em tempo real, o prazer de caminhar com algum frio na ponta do nariz, o prazer de enxergar o brilho que só a miopia proporciona, e enfim, o prazer de conseguir retomar minha vontade de escrever, tenho certeza que ele faria o favor de me expulsar de dentro do carro!

O sol de um quarto para as quatro me lembrou o sol de Maceió: limpo, pouco intenso ao queimar a pele, muito intenso em marcar emoções. Sinto a cidade como se fosse um corpo. Obrigada pelas aventuras, Évora.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Palco de Areia


A fotografia do rosto das duas únicas crianças que assistiam a peça infantil foi ímpar. No início estavam entendendo nada. Procuravam o olhar de aprovação da mãe. Seus rostos estampavam uma variação entre a chatice que muitos sentem quando se fala em uma obra contemporânea, e a ironia no olhar de quando comentam sobre uma obra da Joana Vasconcelos.

A areia pode ser mágica em mãos hábeis. Pode ser simples brincadeira de sujar, ou, pode ser a poeira das estrelas. E essas estrelas podem ser tudo o que você deixou para trás dentro daquela caixa, a caixa das coisas atiradas e esquecidas, das coisas de antes de crescer, de antes de ser o adulto que acreditas que és. A areia pode ser o elo da memória da caixa, um disparador de sentir. E assim, no piscar prolongado dos olhos, jogada sobre o palco inclinado do Teatro de Évora que muito me lembra o Teatro São Pedro - com a saudade das ruas que não andei de Porto Alegre! - reencontro a criança perdida. A areia que sujou minha meia calça castanha e teimou em acompanhar meu braço, a areia fina e amarela-pálida, a areia que podia ser vidro, podia estar corrente nas águas desse planeta tão pequeno, estava ali, toda para mim, tal e qual eu para ela. Despida das preocupações do que os outros poderão achar, aceito a brincadeira e prolongo ainda mais meu piscar combinado com o toque suave deste pó mágico. Quem me conhece reconhece meu prazer pelo toque!

Texturas.

No carrossel instantâneo que congestionou meu espírito, transitei entre as águas cor de chocolate do mar de Tramandaí, a cancha de bocha da Ponte de Arame, e o crepúsculo do céu ao entardecer em Itapuã - que não é a do Toquinho e do Vinícius, mas onde vadiei alguns dias, ouvi as ondas quebrarem, falei de amor e também argumentei com a doçura de uma cachaça rolha. O sol que arde sob o breu de um palco de areia. Palco inquieto, irreproduzível, avesso. Palco para encandear lembranças.

Apague as lâmpadas dos olhos.
O jeito da sua escuridão me acalma.

A quantidade de pessoas continuava exatamente a mesma do início da peça, assim como as pessoas, que eram as mesmas. Porém, tínhamos no mínimo mais umas cinco crianças ali. A cada passo da atriz, um mar de possibilidades. As crianças de idade esqueceram a atriz, pois a areia é um fenômeno sem concorrência. As crianças que foram ali evocadas ficaram na expectativa, na observação, no apreciar da cena, esquecidos de suas idades e de suas vidas além daquele instante. O que ela vai fazer agora? Era uma dança bêbada de espalhar e recolher tábuas quadradas, que quando estavam empilhadas formavam uma caixa cúbica. O desempilhar, desenroscar, desordenar. O sujar, o experimentar, o evocar. O recolher. Maternal e furioso de repente! Um barco cúbico surge dentre as tábuas. Eu naveguei. Não esperei um grande final, pois o que arrecadei no durante foi mais que o suficiente. As luzes que eram poucas já se foram.

Tô sozinho aqui e tenho medo de fantasma.
Deixa eu dormir na sua casa?

Fragmentos da música "Deixa eu Dormir na sua Casa"
Banda Mais Bonita da Cidade

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Uma forma de se importar - Lyer



O gerente foi recebido na loja Empório da Festa com energia. Todos os funcionários saudaram de bom humor quando viram que Caio voltara das férias em plena quarta-feira. Ele aspirou o ar sempre perfumado do lugar com sentimento de volta ao lar. Caio adorava trabalhar ali.
- Achei que só ia chegar na segunda que vem - gritou a bonita mulher de cabelos rosa atrás do grande balcão no fundo da loja.
- Sabia que a surpresa iria encher seus coraçãozinhos de alegria! - Caio piscou para ela, formando um coração com as mãos e o movendo como que batesse em seu peito.
Todos riram e Verônica fez que não com a cabeça. Ambos tinham alguns anos antes dos 30 e eram amigos desde que se conheceram naquela loja.
Caio foi para o vestiário masculino e colocou seu uniforme branco com detalhes em verde, com seu nome bordado no peito e o símbolo da loja de presentes. Ao retornar a loja, viu um rosto conhecido em frente ao balcão. O homem em roupas sociais ajeitava um montinho de papeis para colocar dentro de sua maleta. Tinha o rosto cansado e olhar distante, como sempre.
- Shade! - Caio o cumprimentou - Quem é vivo sempre aparece!
- Ah, e aí? - Shade lhe deu um sorriso triste - Só recolhendo algumas notas. Voltou das férias, é?
- Sabe como é - Caio levou a mão ao queixo, fazendo pose de séria reflexão - Minha simples presença aqui parece fazer nosso lucro subir.
- Não tem como negar - ele riu - Vi algumas velhinhas passarem dando um suspiro de saudade para loja.
- Anda fazendo alguma coisa interessante? - Caio apertou os olhos para ele - Conheceu alguma garota interessante?
- Só o de sempre - Shade terminou de guardar suas coisas - Nada de interessante…
- Ok - disse Caio, decepcionado - Seu aniversário é nesse sábado, né?
- É? - o outro riu, levemente sem jeito - Acho que sim. Como você lembra dessas coisas?
- Tsc tsc - Caio balançou a cabeça em reprovação, então martelou as palavras no balcão com o nó do dedo - Vamos festejar essa sexta, pra comemorar desde o primeiro segundo.
- Eu não acho que…
- Tem coisa melhor pra fazer? Duvido muito - Caio piscou para o amigo - Vou arranjar algumas companhias de verdade. Eu te aviso quando decidir o lugar, ok?
- Ok.
Eles se despediram e Caio observou enquanto Shade ia embora. Sentiu que estava ignorando alguma coisa e de repente percebeu olhos o observando. Olhou lentamente para a direita e viu um rosto de boneca em tamanho real o fitar com desinteresse mórbido. Uma garota de cabelo branco e mechas verdes o encarava com monotonia, sentada em uma cadeira atrás do balcão, no caixa mais próximo da parede. Não tinha como ela ter passado por ele sem ele notar, ainda mais estando tão perto.
- D-de onde você saiu? - Caio sorriu, perplexo.

sábado, 10 de setembro de 2016

Sobre a vida em São Paulo

Antes de vir para cá ouvi tanto falar de São Paulo. De bem e de mal. Sobre pessoas frenéticas, que não te olham, não ajudam, uma selva de pedra onde as pessoas se matam por um teto, um emprego ou uma liquidação. Sobre festas incríveis, quando e onde quiser, com pessoas das mais diversas e sem rótulos, de programações culturais variadas e da pluralidade de gente que vem parar aqui procurando uma oportunidade. É, todos os comentários são um pouco verdade. Hoje, tendo o semestre a milhão na UNIFESP posso reparar que quem sobreviveu em Porto Alegre, mais especificamente na UFRGS, consegue sobreviver aqui. As pessoas são frias? Talvez, mas é a frieza normal de desconhecidos. Meus julgamentos sobre as pessoas e as facilidades de teto e emprego com toda certeza são influenciadas pelas minhas experiências. Quando solicitei a mobilidade acadêmica estava aberto o edital do Programa Santander pela UFRGS, que me garantiu 500 temers mensais para ajuda de custo e logo também comecei na minha bolsa de IC, que me garantem mais 450 temers, e ainda tem um auxílio para moradia, alimentação e transporte de 586 temers que logo sai o resultado, e me encaixo nas especificações de pobreza, então, tenho fé. Levando em consideração que moro razoavelmente perto e em dias e horários de sol, vou a pé para o campus e lá almoço no restaurante universitário, tenho uma renda razoável para sobreviver na terra da garoa. Claro que juntei um dinheiro para emergências e pretendo não ter que mexer nele, mas acho essencial ao menos essa medida quando topamos uma aventura sozinha em terra desconhecida. Sei que meus textos ainda descrevem Porto Alegre, pois deixei muita coisa lá. Não visitei muito esta cidade cinza, mas conheci um pouco de seu verde. O Parque Iberapuera é incrível e gigante, muito maior que a Redenção, e tem um museu bem no meio. Sobre o ar, sim, você enxerga o ar que respira. Bem, isso é um exagero, mas seu nariz sente sim a diferença, tanto que não consigo dormir sem tomar um remédio para respirar melhor. Ainda não experimentei o trânsito congestionado. Quando preciso fazer algum caminho mais longo, usamos o Uber que aqui se mostra uma opção barata e segura... Bem, estou pensando em fazer um blog apenas com estas experiências, contando coisas daqui, com fotos e dicas, mas por enquanto prometo novas histórias.

sábado, 3 de setembro de 2016

Canção de Queiti - uma alcatéia mística de uivos, bocejos e pontos de cesariana



As nuvens venciam o sol no céu das 9 horas de algum lugar. Este lugar que não é Paris mas tem toda pretensão de ser - um dia, quando for adulto - acolhe com ternura um rio, ou laguna, ou estuário. Suas curvas esculpidas pelo homem, por lipoesculturas de aterro e água para criar novos espaços lindos para pessoas de posses ancorarem seus barcos que custam mais que casas populares. Um estádio também. Hoje este estádio é branco com uma iluminação vermelha, e quando a lua vence o céu, um esplendor encarnado em forma de bergamota gigante se mostra imponente, à beira do rio, à beira do estuário, à beira de mais uma partida para se vencer ou empatar.

O calor inesperado vencia o inverno do Sul. Os livros de geografia do ensino fundamental relatam que aqui o clima é ameno no verão e inverno, chamam de clima sub-tropical. Coitados destes autores que escrevem suas teorias atrás da tela de um computador, sentados em poltronas anatômicas, fazendo pesquisas bibliográficas e acreditando nas coisas de 1900. Nunca saberão a imprevisibilidade dos invernos daqui, frios de 0 graus a verões; e verões metódicos de seus 40 graus e chuvas passageiras previstas pelos pontos nas barrigas de mães que pariram por cesariana, ou por joelhos cirurgiados. Até os pontos vencem as previsões do tempo por aqui, pois o sentir pode ser mais imediato que toda a lógica meteorológica de anos de pesquisas. Ninguém explica, assim como o bocejo que explicita a nossa mais profunda ancestralidade tribal - uma alcatéia mística de uivos, bocejos e pontos de cesariana. Ainda existem crendices que vencem a ciência.

Queiti resolveu fugir para a cidade de João pois não achava justo sempre ele ir até ela, ele estar a disposição dela, ele ficar a espera dela.

Sim, você deve estar se perguntando que diabo de nome é esse? É brasileiro? É estadunidense? É filha de semianalfabetos? Talvez. O nome dela é Queiti, se pronuncia como o nome da Katy Perry só que sem o Perry. Quando do registro, o tabelião informou aos pais que não eram permitidos caracteres estrangeiros como a letra K, e diante do som pronunciado pelos pais sugeriu a escrita QUEITI, que foi aceita prontamente, talvez por que quisessem mostrar para o tabelião que entendiam do assunto enquanto entendiam porra alguma, e mostrar segurança é uma boa técnica de autoafirmação e convencimento, ou, simplesmente gostaram do nome e ponto. Não saberemos o motivo, só saberemos que "Tabelião Wins"!

Voltando pra história... Queiti chegou àquela cidade desconhecida e procurou a praça, pois toda cidade do interior que se preze tem a praça, a igreja, a escola particular e o pequeno centro comercial, tudo isso no Bairro Centro, que por vezes realmente é o centro geométrico da região urbana da cidade. Ligou e enviou mensagens para João que não atendeu nem respondeu. Certamente se quem estivesse escrevendo esta história fosse Walcyr Carrasco ou outro Global iria descrever Queiti enlouquecida e desesperada pois João não atende, pois ele sumiu, pois ele deve estar com a Darlene (aquela vagabunda!), pois é claro, ele sofreu um acidente de carro e ficou paraplégico e todos nós aqui pensando mal do pobre e inocente João. Quando vejo cenas assim, logo imagino as mulheres loucas e descompensadas, e que certamente não iria querer uma mulher na minha vida. Daí lembro que sou mulher e não sou assim, que não preciso ser assim para me sentir mulher, pois sou, e me pergunto como, se existem tantas, mas tantas mulheres no mundo, porque as mulheres das novelas e dos filmes são sempre as mesmas? Ainda bem que isto aqui não é uma novela da Globo, e Queiti não é uma atriz que aceita papel de qualquer autorzinho. Queiti, sem ter para onde ir, sem conhecer ninguém naquela cidade além de João, pelas nuvens que ameaçavam cair em sua cabeça e pelo frio que vencia sua vestimenta, decidiu sentar no banco da praça e continuar a ler um dos dois livros que carregava em sua mochi-bolsa-casa. Sentou como aqueles senhores que estavam lá sentados lendo o seu Diário Gaúcho, se enchendo de colunas que afirmavam sua macheza, recortando o "recorte e ganhe" da vez, - um conjunto de xícaras - para suas "negas véias" como chamam suas esposas brancas que ainda brincam de casinha, só que agora brincam com seus 70 anos de esposinha, vovózinha, tiazinha e todas as inhas que uma senhora recatada e do lar deve ser. Bons senhores sentados nos bancos das praças, com seus jornais ou com as vidas alheias. Queiti era observada por eles. Algo ela tinha de estranho. Talvez porque estava lendo, ou porque era jovem, ou porque era estranha na cidade que todos se conhecem, mas tenho quase certeza que o motivo principal era ela ser uma jovem leitora desconhecida: mulher. Isso. Queiti observara com algum desconforto os olhares de desconforto. Percebeu que as mulheres dali estavam atravessando a praça, ou trabalhando levantando dados sobre uma pesquisa das eleições locais, ou com seus filhos na pracinha às suas costas. Com foco em sua leitura, a casca dourada de duas horas caiu ao chão e na desistência de esperar João naquele vento cortante, no cansaço do livro que está quase acabando desde que iniciara a leitura, e na procura de algum outro passatempo, ela guarda suas coisas convicta em caminhar por aí. Preto vem sorrindo em sua direção, um jovem de meia idade e olhos cor de mel. Diferente de todos naquela praça, ele não a observou ao longe pois assim que notou sua presença foi direto, atraído por algum carinho secreto que desconhecidos podem causar. Ela coçou seu pescoço ao se apresentar, e os olhos dele venceram os olhos negros dela. Sentimento fraterno à primeira vista, à primeira coçadinha. O cão atirou-se aos seus pés, prendendo no calor de seu peito o pé direito de Queiti, que namorava as batidas sinceras de um coração cachorro, tão cachorro quanto o coração de João, quanto o dela. O cão vencera a convicção de Queiti de abandonar a praça. O telefone toca. João com uma voz embriagada de sono ou cerveja fala apavorado seu melhor oi. Sim, seu idiota, ela estava na praça todo esse tempo que você dormia, e ela sabia que você ainda dormia pois ontem você foi dormir tarde após uns goles e uns papos altos. Ela tinha calculado o tamanho da inconsequência de ir a você sem avisar, sem dinheiro para voltar, sem medo de te amar. Ela sempre soube destas coisas todas e se você pedir desculpa por isso, ou pior, se você disser que isso não vai se repetir, que vai estar acordado, ou que ela precisa avisar, ser responsável ou previsível, ela ficaria triste e vendaria os olhos para o devir. Ainda bem que suas desculpas por estar dormindo soaram mais como um vício de linguagem do que como um pedido de desculpas.

João era guia turístico de sua cidade, assim como toda pessoa que vai apresentar a cidade em que cresceu para seus amigos. Ali, naquele prédio feio, branco com rosa é a prefeitura, ali naquele outro prédio tinha uma loja que minha mãe trabalhava, aqui fica um colégio particular e lá fica o outro, eles tem uma rivalidade e quando eu estudava na escola pública no médio, sempre ajudava o pessoal dessa escola aqui a avacalhar o pessoal da outra, ali são os bancos, mas você já viu, e essa praça aqui não era assim, foi reformada a pouco tempo. Ela responde que sobre a praça ter sido reformada ela já houvera descoberto, pois cada senhora que passava e via o Preto atirado sobre seu pé, após relatar que o Preto é lindo, olhava para os brinquedos da pracinha e diziam que a obra tinha ficado bonita. Queiti concordava com as senhoras e sorria, pois um sorriso cura muita coisa, vence muita coisa.

Queiti andava com o paladar um tanto estranho. Sentia gosto de cerveja no macarrão e de maconha no frango. A lentilha que ela ansiava no alto de sua fome, não satisfizera seu desejo, pois não era a sua lentilha. Era um belo restaurante e a sobremesa de morango fará Queiti retornar ao local num futuro próximo. Ou não. Havia uma folha de papel seda ou algum outro semelhante cobrindo as mesas, isso impedia que vestígios de almoços sujassem as toalhas de mesa que eram de cor bordô, além de proporcionar uma limpeza rápida, pois eram folhas descartáveis. As tais folhas, se riscadas com a unha ou um palito de madeira - destes que ficam sobre as mesas dos restaurantes para espalitar os dentes - ficam desenhadas, como se usassem canetas Bic sobre uma folha branca. Uma folha que esperava nada além de pedaços caídos de comida, comida desprezada a ser jogada fora, recebeu desenhos do garçom que roubava os pratos vazios das mesas e carregava na sua grande bandeja de alumínio, recebeu uns Fora Temer, elogios, assinaturas de outras pessoas, e filosofias recém pintadas pelo filósofo que dorme embaixo das camas. Queiti e João eram assim, um poço que começa em Porto Alegre, passa pela imaginação, pelo intelecto, pelos prazeres da carne e da arte, e que acaba num pôr do sol no Japão, pois todo tempo é tempo de pôr do sol em algum lugar.

O senado, comprado, vence Dilma. Dias tristes e de descrença. A democracia chora por mais um golpe que a vida dá. É isso, golpe! Sem crime de responsabilidade é GOLPE sim!

A polícia vence o ato. Vence com bombas de gás de pimenta, bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha. É só tiro, porrada e bomba como diz Valeska, e também é só uma página infeliz da nossa história, uma tentativa de acordar a nossa Pátria mãe tão distraída como bem professou o Chico em suas canções apocalípticas. A polícia venceu, calou as palavras de ordem ontem, hoje, amanhã. Até quando ela vencerá?

Queiti não sabia, mas tinha andado até perto da casa de João antes de ter ido ao centro. João tenta arrumar a casa que estava fechada a algum tempo, se preocupa em oferecer algum conforto pra ela. Ela não estava muito preocupada com que iria encontrar lá, que casa iria encontrar, pois se alguma marotona de atravessar a metrópole foi feita por ela, foi justamente para vê-lo, tê-lo, sentí-lo, e isso ela alcançou. João teimava alguma incerteza, apoquentava seu tom de voz e terminava dando ombros com um "é isso!". Da toca do coelho a única coisa que importava para ela era o coelho. Ele deitou-se ao lado dela, enroscaram as pernas, olharam para os 8 pássaros desenhados no varal da parede, 8 desenhos diferentes do mesmo pássaro cinza. Ela viu que por baixo da pintura atual, tinha algum verso escrito, mas não que ela seja uma observadora de coisas muito boa, ela só gosta de ver o que tem por baixo das etiquetas de promoção. Se for para observar, Queiti escolheria observar as pessoas. João também. Por isso eles se gostam. Inclusive por isso. Para além, bem, vocês podem imaginar. Não podem? Hum... Ok. Vou continuar a história. Ele reclama que estão tortos na cama, tudo desculpa descarada para ter espaço de movimentarem-se melhor. Os beijos ficam quentes muito rápido. As calças desaparecem como por um toque mágico de um mágico atrapalhado. Quem inventou as calças skinny? Ela de regata justa branca, calcinha e corrente da mão de Hamsá; ele de camiseta cinza, todos seus hormônios e dedos. Como um homem de pensamentos tão doces pode ter um sabor salgado, amargo, umami? Após uma ou duas horas, saciam-se um ao outro, juntos, cansados, exaustos, satisfeitos.

Os músculos de Queiti doem, hoje, não pelo sexo, mas pelos protestos e tensões das fugas do dia anterior. Ela havia dormido só três horas à noite. O despertador venceu sua sede pelo aconchego da cama.

E o apego repetitivo pela vitória, pelo vencer? A vitória só existe em detrimento do outro. Vencer cria dois subconjuntos distintos: nós, os que vencemos; eles, os que perdem. E posso apostar que nesse jogo ninguém quer sair perdendo.