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domingo, 26 de junho de 2016

Espaço-Tempo



- O quanto mais podemos falar sem falar o que queremos?

- O quanto mais QUEREMOS falar sem falar o que PODEMOS?

Alberto Burnman é um homem febril, de saúde frágil e sonhos lúcidos.
Burnman, de pensamentos emaranhados, transversais e de algum modo, lineares.
Burnman, de dentes, línguas e palavras afiadas.
Burnman, de sonetos acordados, de acordes sem acordos, de cordas com nós feitos nos bolsos como fossem fones.

- Isso é relativo. O tempo, nosso vilão favorito, nos dá uma percepção passiva do passado. Diminui, esfria, apequena.

- É... tempo como forma de distância, espaço-tempo. Um afastar para um olhar, um procurar.

- Uma busca!

- Isso! Uma busca!

Sabe quando médicos fazem uma piada que só eles riem e todo mundo que está a volta fica olhando sem entender? Uma espécie de acordo silencioso e com alguma graça? Pois bem, uma sintonia de mesma espécie preencheu o ar e os olhares dos dois naquela mesinha simpática e apertada. Sorriram.

- Então, eu vou pedir um hidromel.

Ele ri:

- Te acompanho!

Ele olha para a moça que atendia no bar. A moça estava olhando, já a espera do pedido.

Burnman, feito de poeira intergaláctica, doces e cigarros.
Burnman, observador de adereços e seus donos em festas lotadas.
Burnman, a última bergamota viva da fruteira, implorando por ser roubada numa tarde de quarta-feira.
Burnman, de dupla identidade e simples assinatura de iniciais.
Autor, diretor, produtor e intérprete do pacato monólogo de fogo da sua vida.

- O que quer fazer agora?

- Acho que podemos ir a algum lugar que venda cerveja mas não pareça tanto que querem só nos vender cerveja. - Visivelmente a atenção excessiva da garçonete em perguntar se estava tudo certo incomodou.

- Conheço um bar, só não sei se está aberto hoje.

- Ótimo! Esse é perfeito!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Companhia



Era um apartamento bem pequeno, em uma espécie de condomínio do subúrbio. Shade vivia ali havia cerca de dois anos e a cada dia que passava, tinha mais dificuldade de lembrar como era sua vida antes de se acomodar àquela rotina. Sua esposa o deixara havia bem mais tempo e, depois de vários brigas jurídicas, havia ganhado o antigo apartamento que ambos se esforçaram tanto para quitar. Ela então passara a viver com o novo namorado e Shade se mudara para bem longe. Shade entrou em seu apartamento e cumprimentou Moony. A garota de cerca de vinte anos o saudou com sua energia infinita e um sorriso enorme.
- Fiz carinho num gato hoje! - ela disparou - Tinha uma mancha no olho como um mini-panda!
- Legal - comentou Shade, tirando as botas embarradas e as depositando perto da porta, ao lado de onde escorara o guarda-chuva.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Integral


Não gosto de crer que precisamos de algo ou alguém. Somos ótimos sozinhos, e por isso, inclusive e majoritariamente por isso, juntos somos incríveis. Talvez, isso nos una de alguma forma. Veja, os outros precisam de mim por um motivo ou outro. Você não precisa. Você quer estar. É diferente. É denso e liberto. Egoísmo? Você pode ver assim. Mas não é assim que nos leio.

Estava conversando com o Guido sobre o que é ser pós moderno. Ele me veio com uma história curta e pra mim, cheia de frutos. Contou que na época da Escola - Brooklyn, 1979 - tinha muita dificuldade em literatura, pois sempre confundia os períodos literários... o que veio primeiro? Barroco, Romantismo, Parnasianismo? Sabe, essas tantas coisas do tempo que perpassam as horas. Então o professor disse, "Não fique nervoso. Novos movimentos só surgem para se opor aos movimentos atuais. Do contrário, serão ainda o movimento atual. Mais do mesmo."

Com isso, após um longo período de sentimentos, vem a razão. Depois de longo período racional, vem o sentir... E é assim que funciona. Fechado. Cíclico.

Guido arrematou o assunto dizendo que após o período lógico da modernidade, da ordem, de generalizações, de métodos, de controle, de leis imutáveis, havia uma necessidade pela pós-modernidade. Ou seja, o tédio do moderno, do morno, do construído, deixa o caminho livre para a práxis do calor, do permitir, do reinventar, do frenesi da desordem de cores, nomes e amores...

Claro, como disse, Guido foi rápido e simples em suas colocações. A ideia é dele, as divagações são minhas. Ou melhor, são você. Você me faz pós-moderna. Não que eu precise - talvez precise. Confesso que os raios gama da modernidade ainda me assombram. Fragmentos da longa exposição desta ordem temida e bem escriturada.

Bem... retomando sobre o moderno e o pós-moderno, acredito que meus picos de modernidade fazem eu temer meu gostar por ti. Mas meus vales pós-modernos fazem eu gostar de te gostar, esquecer de te esquecer, e fazem eu querer te roubar para me entregar. Uma melodia de você. Integral. Integral em todos seus sentidos. Orgânico. Pleno. Matemático.

Você é uma abcissa.
Eu, uma ordenada.
Bem, temos um plano.
Cartesiano!
Juntas - nossas ideias
são uma função.
Como medir nossa imaginação?
Integre.

- Tenho alguma consciência que fui depositando peso em minhas palavras, uma forma de diminuir nossa distância, de que minhas palavras sejam meus olhos e meu corpo a você... mas, ainda me restava dúvidas se devia assim, me declarar a você, tão nítido, tão frágil... Gosto deste eu apaixonado. Gosto de como você me faz isso. Gosto mesmo disto tudo... Não sei ser mais ou menos com você.

- Não seja.

Resquícios de um ouro qualquer


Pra mim, eram 13 graus. Mas não precisa me levar muito em consideração, pois imparcialidade não é meu forte. A tal Árvore dos Problemas nunca funcionou comigo e duvido que funcione para algum jornalista da face deste planeta. Carrego minhas crenças, meus achismos, meus problemas e meus amores sempre debaixo do braço. O esquerdo!

No caminho perdido para por em prática as atividades planejadas por anos, sozinhos, alheios ao conhecimento das vontades um do outro, pegaram um comboio de rumo dúbio. Ela via futuros amigos em rostos desconhecidos, sempre fizera isso, e às vezes utilizavam-se de sua boa fé.

Entraram, desconfiados, naquele prédio que não foi projetado pelo Niemeyer. O segurança abriu a porta com sorriso e frio, pelo choque da temperatura interna com a externa. Antes que alguma dúvida causasse destruição, uma senhora informada dá boa tarde, com panfletos e sugestões. Certamente a sugestão mais apreciada foi a de colocar a imensa e pesada mochila na chapelaria, gratuita e segura. Eram o número 16. Por 3 não foram o 13, mas o 13 não anda ganhando muitas coisas ultimamente. Linhas retas e janelas tortas. Janelas que pareciam retratos de uma Porto Alegre calma de um outono frio. As nuvens existiam ao céu como para enfeitar de branco e cinza o azul resplandecente. Contrastes. Passeios da escola trazem boas lembranças para ela, por isso ela sempre observa quando vê um bando de crianças guiados por um adulto. Problematizar as falas dos velhos parece uma necessidade, e problematizar as falas das crianças é apenas um laboratório experimental sobre a perspectiva de Piaget, ou pura diversão. Dentro, a exposições de dois artistas. O do terceiro e quarto andar certamente era parente ou fã do Cavalieri, pois utilizava seus princípios todo o tempo, seus volumes deformados, parados e ao mesmo, dinâmicos. O segundo andar era um ensaio de fantasmas e obras sem nome, além de desenhos de 93 que retratavam sentimentos sobre a política da época. Para ela foi um achado estar ali com ele, pois não entenderia nada sozinha. Em 93 ela apenas balbuciava suas primeiras palavras. Papá foi a primeira. Sentia fome.

E mesmo com um lugar do tamanho de algum mundo, conseguiam pechar. Pechavam corpos, olhares e imaginações. Ali, pariram, numa gravidez compartilhada, dois esquilos e uma marmota - mas essa história é tão longa e imprevisível que eles vão ter que dar um jeito de continuá-la em capítulos cooperativos.

Maçanetas. Camisetas. Planetas.

Decidiram por dar um jeito de atravessar aquela rua que mais é um contorno ao Guaíba. O método tradicional de atravessar ruas certamente não foi o pensado por quem construiu aquela rua. Trânsito contínuo. Sem faixas de pedestre. Cogitaram a existência de um estacionamento subterrâneo, visto entradas aparentes de estacionamento subterrâneo. Verdade. Um estacionamento bonito, amplo, branco, parecido com algum estacionamento de algum filme estadunidense de terror com palhaços.

- Eu poderia morar aqui. - afirmou ela.

- Olha o palhaço vindo ali atrás!

Ela olha e sorri.

- Não tem nada! Ainda poderia morar aqui.

Do outro lado da rua, um banco. A vista única do Guaíba. Pedaços de ouro brilhante sobre a água.

- Pode ser prata!? - ele argumenta.

Entre o vento frio e a atmosfera criada pelos dois, para os dois, ganharam ares para apreciar pequenos esporos de vida. Ela oferece uma bergamota. Os olhos dele, que refletem ouro e alguma gratidão, titubeiam. Mais que logo, ela saca a dita bergamota da montanha marrom que carrega nas costas. Ele pensa sobre como ela ainda consegue surpreendê-lo com coisas comuns. Ela pensa como foi ótima a idéia de colocar a bergamota na mochila, para comê-la ali, no sol, com ele. Ele oferece o último gomo a ela.

- Não precisa! Temos outra! - ela saca outra bergamota da mochila.

Parecendo fazer parte de uma peça teatral de comédia ingênua, riem. No meio de tempos corridos de uma cidade de concreto, eles se propõe a desvendar os verdes e as memórias a serem vividas. O beijo doce e cítrico se faz entre os lábios que se conhecem há tempos mas agem como novatos toda vez. Inúteis sob alguma perspectiva imediatista de consumo. Por outro lado, úteis como um toque sereno de calor e aconchego em busca de algum resquício de humanidade inventiva.

Azul: a metade chave do escuro


Círculos ou eliPses?

Estavam atravEssando a rua quando esta dúvida surgiu. Gostava ele de não definir. Em seus olhos de marte, via a definição como um espaço limitador. Ela ainda estava aprendendo o deixar a vida, o esperar dos próximos capítulos, o permitir desregrado, estava pela desordem em busca. Contradizendo algumas premiSSas, suas escritas - as dele - estavam muito bem estruturadas, em tempos, ritmos e pontuações. Principalmente em pontuações. Desistiu de ser discípulo de Saramago? Estás vIvendo alguma ordem sonhadora e febril?

Polvilho ou maisena?
Biscoitos ou beM-casados?
Belém ou tOrtinhas de nata?

- Tenho que te contar essa idEia. Preciso dividí-la com alguém, para que algum dia talvez ela seja feita... Pois, bono, nesses teMpos de crise e deSemprego, se eu fosse dono de uma emissora de TV ou algo do tipo, iria convocar os meus jornalistas e apresentar o cenário da necEssidade de demitir apenas um deles, devido a crise, é claro. Deixaria um tempo para eles começaRem a se justificar com contas, filhos, aluguel... depois diria as outras condições e é aí que começa a parte interessante. - num tom de voz que lembra o Roberto Justus, ele continua - Quem oPtar por ser O Demitido terá a opção de aceitar ser peça chave para um documentário inovador de experiências reais, de modo que ao término do documentário terá um convite de emprego para ser âncora do Jornal. No que consiste o documentário? Pois, bono, consiste em gravar a vida de um desempregado desde os momentos iniciais até seu novo emprego. Ir para a fila do seguro desemprego? Sim! Procurar emprego num mercado saturado onde não se precisa mais de diploma para exercer a profissão? Sim! Voltar a morar com os pais? Sim! Trancar algum curso por ter que escolher entre comer ou pagar o curso? Sim! Ter que editar trabalhos nas normas da ABNT para ganhar algum? Sim! Tomar água para passar a fome? Sim! Não ter o dinheiro da passagem para ir à entrevista e ter de mentir que foi assaltado? Sim... Enfim, sofrer o que tiver que sofrer. Não ter ajuda alguma ou vínculo algum com nossa empresa. Gravar tudo isso e ficar com alguma fama após o documentário concluído. - sem evocar o Justos, agora com seu timbre normal, continua - Não teria tempo mínimo ou máximo, porém se conseguissem outro emprego muito rápido, antes do fim do sEguro, chamaríamos outro voluntário.

- ISSo não seria alguma espécie de terrorismo com teus funcionários? - sua testa franzida sugere um talvez - E tem outra, homens brancos e relativamente jovens, talvez tenham um menor período de busca de emprego...

- Seria perfeito! Mostraria nas telas escancaradas o preconceito velado que se tem por aí. Ou nós no surpreenderíamos com algum resultado diferente.

- O que seria ótIMO!

Decididos em cutucar algumas mentes investigativas e ociosas, tramaram um possível despertar de enigmas doces. Uma ordem nada trivial entre o verde e vermelho dos açúcares. Ah! Os daltônicos! Fodam-se os daltônicos! É difícil ser politicamente correto o tempo todo. É difícil ser lógico. É difícil não dar pistas. Sempre vai existir alguém insatisfeito, até no amor.... Seja o marido, o amante, o vizinho... ou depois de um tempo, todos eles.

Destino ou acaso?
Tempo ou sorte?

Um encontro contra a febre amarela, sem febre, sem beijos, sem sexo, sem mãos, poderia comprometer?

- Não procura como fazer uma elipse com a corda! Deixa que um dia fazemos isso juntos... É lindo!

Inocente ou maquiavélica?

Fotografia.